Há 50 anos era 1968, o ano que mudou o mundo

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Há 50 anos, precisamente em 08 de julho, eu estava nascendo numa pequena cabana no igarapé São Pedro, um dos vários vilarejos do Município de Afuá-PA. Nascia para aplacar um pouco o sofrimento de meus pais que, à poucos meses, haviam perdido meu irmão antecessor. Nascia sob a marca de um ano que iria mudar a história da humanidade.

Esse ano, 1968, iniciou com a célebre declaração do Papa Paulo VI de que ali começava um período de paz. Mal sabia ele que aquele ano iria ser marcado por uma série de revoltas, levantes e acontecimentos em escala global.

Talvez a declaração do Papa girava em torno do que os noticiários já sinalizavam: mais de 22 anos do final da segunda guerra mundial e as comemorações, no ano seguinte, dos 50 anos do tratado Versales, que marcou o término da primeira grande guerra. Mas o mundo estava como um barril de pólvora, prestes a mostrar sua força.

Sessenta e oito é marcado, principalmente, pelas revoltas e levantes sociais, seja pela saturação com os gastos de guerras, as mega concentrações contra o regime militar no Brasil ou a luta pelos direitos civis dos negros americanos. Houve uma revolução cultural e de costumes. É o ano que marca também, exatamente, a metade do período chamado de Guerra Fria (1945-1991).

Desde 64, o Brasil já vivia o contexto da ditadura militar (que encerrou em 1985), mas em 68 houve o endurecimento do regime, com a edição do famoso AI-5. O Ato Institucional nº 5, foi baixado em 13 de dezembro de 1968, no governo do general Costa e Silva e vigorou por dez longos anos. É definido na história como o ato mais duro do regime militar, eis que dava poder de exceção aos governantes para, arbitrariamente, punir os que fossem ou parecessem ser inimigos do regime. O AI-5 autorizava o presidente da República, em caráter excepcional e, portanto, sem apreciação judicial, a: decretar o recesso do Congresso Nacional; intervir nos estados e municípios; cassar mandatos parlamentares; suspender, por dez anos, os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens considerados ilícitos; e suspender a garantia do habeas-corpus. 

No plano mundial, estava ocorrendo a guerra do Vietnã (1955-1975). Em 68, diversos movimentos de paz contra essa guerra se intensificaram nos EUA, o que fez com que Lyndon Jhonson abrisse negociações de paz com o país asiático.

No inicio de 1968, assume o governo da Tchecoslováquia (hoje República Tcheca) Alexander Dubcek que inicia uma série de reformas estruturais tanto na política como social, econômica e cultural, que entrou pra história como a Primavera de praga. Em agosto do mesmo ano as tropas da União Soviética invadiram a Tchecoslováquia, para abafar o movimento de massas.

Outro movimento que entrou para a história em 3 de maio de 1968 (exatamente no dia que escrevo este texto) foi de estudantes franceses que ocuparam a Universidade de Sorbonne. As barricadas ganharam força e logo se alastraram por toda a França, com críticas à política do general Charles de Gaulle. Esse movimento culminou com a greve geral de 24 horas que paralisou Paris. 

Poderíamos falar em tantos acontecimentos como a passeata dos cem mil, quando, no Brasil, estudantes, religiosos e artistas caminharam contra o regime militar no dia 26 de junho pelas ruas do centro do Rio de Janeirodo Massacre de Estudantes, em 2 de outubro, no México, que pediam mais liberdades civis, que foi brutalmente reprimido pelo Exército mexicano, que até hoje não se sabe o número total de jovens mortos. Sim, poderíamos falar de tantos acontecimentos de 1968, mas gostaria de finalizar com o acontecimento que marcou demais a minha vida: o assassinado do Advogado, ativista e Pastor negro Martin Luther King, em 4 de abril de 1968.

Esse fato é marcante pois Luther King representa um pouco de cada luta e manifestação ocorrida em 68 e nos anos subsequentes. Se posicionava abertamente contra a não-violência e a Guerra do Vietnã e se tornou um dos líderes mais importantes do movimento por direitos civis nos EUA. 

O momento marcante de sua trajetória foi durante a marcha em Washington, que reuniu 250 mil pessoas em agosto de 1963, na qual pronunciou o histórico discurso “I have a dream” – eu tenho um sonho. Esse sonho continua vivo em cada um de nós. Ele sonhava com uma sociedade racialmente igualitária na qual os negros estivessem integrados em sua plenitude. 

Há dez anos, uma matéria da Revista Época fazia a seguinte constatação: 
Quarenta anos depois, 68 continua enigmático, estranho e ambíguo como um adolescente em crise existencial. Ele foi o ano ….. Do assassinato de Martin Luther King. Dos protestos contra a Guerra do Vietnã Da revolta dos estudantes em Paris. Da Primavera de Praga. Da radicalização da luta estudantil e do recrudescimento da ditadura no Brasil. Da Tropicália e do cinema marginal brasileiro. Foi, em suma, o ano do “êxtase da História”, para citar uma frase do sociólogo francês Edgar Morin, um dos pensadores mais importantes do século XX. Foi um ano que, por seus excessos, marcou a humanidade. As utopias criadas em 68 podem não ter se realizado. Mas mudaram para sempre a forma como encaramos a vida.” (ÉPOCA. 1968 – O ano das transformações. 7 de janeiro de 2008).

1968 continua vivo!!

Heraldo Costa, é pastor evangélico, juiz de direito e membro da academia de letras evangélicas amapaense

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