MEU PAI E OS PATOS

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Essa história aconteceu na Macapá dos anos 70, numa daquelas manhãs chuvosas, no bairro do Buritizal.
Aquela Macapá que tinha suas figuras carismáticas que perambulavam pelas ruas: os doentes mentais Cacá e Rubilota, dos quais mamãe dizia que tinham fugido do hospício e que se os visse na rua era para correr deles; ou o “ripe único”, um compridão que na nossa mente infantil já tinha rodado todo o mundo e veio parar em Macapá, que não tomava banho e fazia uns “enfeites” pro pescoço e orelha, na praça Veiga Cabral.

A Macapá dos arraias de São José que eu e meu irmão Ronaldo íamos visitar, sem que nossos pais soubessem, claro, pois estavam tranquilos nos cultos na Assembleia de Deus da Rua Tiradentes. Essas “festas profanas” que eram realizadas no terreno onde depois o Comandante Barcellos, meio contra vontade de muitos, construiu uma “grande casa” pra artistas (Teatro das Bacabeiras).

A nossa Macapá das tertúlias (não sei o que significa) que era uma festa que era realizada de tarde. De tarde?
A velha Macapá, que ia da fazenda do “Seu Muca” (fim do Buritizal, hoje bairro do Muca) até o Canal do “jandiá”. E do Amazonas até o 3º BIS (Quartel do Exército). Por falar nisso, estava outro dia lembrando que o quartel do exército era longe pacas.

Aquela Macapá, toda prosa, que tinha poucos “guardas” mas que adormecia tranquila, com muita segurança. Em casa as vezes a janela, que tinha por fechadura um trinco de madeira, acabava abrindo com o chacoalhar do vento. Mas de manhã, tudo estava lá. Esse “tudo” se limitava a algumas panelas, redes, “muchos”, lamparinas e um pote de barro, de onde a gente tirava água pra beber.

Pois bem, foi nessa Macapá que um dia fomos acordados por meu pai, com a notícia de que sua “Olé 70” tinha sido “roubada”. Deixa explicar pros mais novos que uma “Olé 70” era uma bicicleta comemorativa que a Monark fez na copa de 70.

Desesperado diante da perda de um bem de grande valor e utilidade na qual ele ia trabalhar, estudar no Castelo Branco e ainda ia pra igreja, meu pai era a expressão da apreensão. Uma das primeiras imagens que tenho em minha mente é justamente meu pai “pilotando” esse monstrengo, que tinha uma roda no meio do “varão”, com uma caixa de ferramentas de carpintaria na garupa.

– Onde vamos parar” dizia ele, – “não respeitam mais o patrimônio alheio”. O larápio tinha tido a audácia de entrar num quintal sem cercado e sem portão e pegar o bem, sem nenhum cadeado.

Lamentos e sustos à parte, meu pai foi naquele dia a pé pro serviço. Estava ele numa “empleita” de construir uma pequena capela, no cemitério do bairro Santa Rita, na companhia de seu amigo Pedro.

Lá pelas tantas, perto da hora do almoço, quando já colocava o telhado, meu pai viu o gatuno passar folgadamente “charlando” em sua “Olé 70”. Pediu rápido a bicicleta do Pedro e saiu em disparada pela Santos Dumont até alcançar o meliante. Emparelhando, deu um pisão na bicicleta, que veio ao chão. O Ladrão, não vendo outra alternativa, saiu em desabalada carreira.

Ao recuperar a bicicleta, meu pai notou que na garupa estava um paneiro cheio de patos bem gordinhos, talvez fruto de outra empreitada criminosa do ladrão de bicicleta.

Recordo que quando meu pai chegou em casa, não se continha de tanta felicidade por ter recuperado a “magrela” e contava para nós e também para os vizinhos, pois nesse tempo nenhuma cerca dividia os quintais, sua grande façanha.

Ao ver o paneiro de patos, minha mãe ficou muito alegre, pois naquele dia colocara apenas o velho feijão com arroz no fogo e um “patarrão” daquele ia complementar a “bóia”.

Ao se preparar para pegar os “quá quá”, meu pai obstou sua ação dizendo que ela nada poderia fazer com os patos. Aturdida, minha mãe queria saber o motivo de poupar do almoço aquelas aves “cagonas” e meu pai explicou a ela que os patos já estavam na garupa quando recuperou a bicicleta.

– “Vou devolver na delegacia”, dizia ele, para assombro de dona “Loló”. Minha mãe argumentava que, como ninguém sabia de quem eram os patos, podiam ficar pelo menos com um deles para um gostoso ensopado e que se entregasse na delegacia, outro destino não seria dado.

Meu pai, fechando a discussão disse: – “Não quero saber se a polícia vai ou não entregar pro dono, o certo é que os patos não são meus e não posso ficar com eles”.

Quando essa história aconteceu eu tinha uns seis anos e estava começando a “desemburrar” na Escola Roraima, mas hoje, casado, pai e magistrado, quando me vejo diante de uma questão moral e ética, me vem sempre à mente a história de meu pai e os patos.

O Autor e Juiz de Direito da Justiça do Amapá e membro da academia de letras evangélicas amapaense. Seu pai é conhecido no Buritizal como “Seu Costa”, que depois de ser carpinteiro, se tornou comerciante de madeira e construiu um bom patrimônio sem precisar ter comido o pato alheio.

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