O DÍZIMO AMALDIÇOADO

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Um episódio sócio-religioso inusitado aconteceu no início da década de 50 do século passado, na cidade de Campo Maior, no Piauí.
Têmis Alcoforado era uma bela jovem de classe média, de fina cultura, iniciava os estudos preparatórios para ingressar no curso superior. Seus pais não descuravam da sua educação e preparação religiosa, praticavam fervorosamente a religião católica.
Acontece que em um determinado dia a paixão da carne foi mais forte. A atraente jovem, num dia quente de verão piauiense foi seduzida pelo amor “eros” e engravidou quando ainda solteira.
A sua família envergonhada, negou o apoio familiar à desditada jovem, obrigando-a abandonar a casa paternal.
Após a criança nascer, sem referência e precisando sobreviver, entregou-se à prostituição programada com uma classe seleta de homens que lhe poderiam pagar bem.
Das mulheres entregues à “vida fácil”, em Campo Maior, era a mais procurada. Uma vez ou outra ela se lembrava dos ensinos religiosos de sua mãe, como a prática de entregar o dízimo à paróquia.
O padre enrubescido por aquele ato, foi logo atacando: “Sua rameira sem vergonha, você tem coragem de trazer à santa igreja como dízimo, o produto do seu pecado? Esse dinheiro está manchado pela prostituição. Esse dinheiro é anátema, jamais sujaria minhas mãos com um dinheiro pestilento como esse. Quero lhe ver de costa. Agora vai!”
A “Messalina” do século xx, desapontada ponderou: “Mas padre, Jesus acolheu Maria Madalena, quando foi flagrada em pleno adultério! E ainda desafiou seus algozes dizendo: atire a primeira pedra quem não tiver pecado.”
“Jesus perdoou e aceitou a prostituta que quebrou o vidro de perfume aos seus pés, molhou-os com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Onde estar no senhor os exemplos de Jesus?”
O padre não aceitou os seus argumentos e a expulsou da igreja.
Inconformada, resolveu com suas colegas fazer uma passeata pelas ruas de Campo Maior protestando contra a intolerância do pároco. Conseguiu dez corajosas “aspásias” e saíram com cartazes, protestando contra a atitude do religioso, pelas ruas de Campo Maior. Esse movimento teve uma repercussão tão grande na cidade, que chegou ao conhecimento do bispo diocesano na capital.
O bispo mandou chamar o padre à capital e o interpelou perguntando em que se baseava para rejeitar o dízimo de uma prostituta.
O bispo reforçou o seu argumento dizendo: “Jesus disse que não são os sadios que precisam de médico, mas sim os enfermos?” Concluindo disse que Jesus não rejeitou o vidro de alabastro contendo um nardo caríssimo, quebrado aos seus pés por uma prostituta. Completou perguntando se ele era melhor que Jesus.
O bispo ainda explicou ao padre, que o dinheiro que entra na igreja, não vem carimbado, indicando a sua procedência ou por onde ele já passou. Todo dinheiro um dia, já passou pelas mãos da prostituta, do ladrão, do contraventor, do pobre e do usuário de drogas.
O bispo terminou dizendo que as boas causas não podem discriminar o dinheiro. O dinheiro sempre é bem vindo para casa do Senhor.
O padre voltou à sua paróquia inconformado, mas foi obrigado aceitar as recomendações do seu superior.

Dr. Pr. Oton Miranda de Alencar Membro da Academia de Letras e Artes do Brasil

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