Se conselho fosse bom, não seria dado, mas, vendido

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A sociedade contemporânea evidencia na prática comportamental das pessoas, as marcas características da mentalidade pós-moderna, onde os valores são relativizados e algumas questões primordiais da vida vilipendiadas. Num passado não muito distante, as pessoas idosas eram valorizadas não porque constituíam uma classe com potencial econômico, mas, pela bagagem experiencial que possuíam. Essa forma hodierna de pensar valoriza o ter em detrimento do ser, o consumismo é sua neurose, e o capitalismo sua religião. Isso é tão presente no cotidiano coletivo, que atitudes simples como o ato de aconselhar perdeu o seu valor relacional, para adquirir valor monetário.

Pensando nessa realidade, me veio à memória um conto, que li em um livro na forma de ilustração, que narra à história de um jovem que estava de casamento marcado, aguardando o grande dia do seu matrimônio. Até que, diante de uma grande crise na região onde morava, teve que deixar sua noiva e viajar em busca de trabalho. A moça vivia com seus pais e um irmão recém-nascido. O rapaz, após caminhar quatro dias conseguiu emprego. Mesmo com o coração partido, resolveu retornar apenas quando possuísse o dinheiro necessário para realizar o seu sonho que era casar-se com sua amada. Depois de alguns anos, finalmente, ele pôde fazer o acerto final com seu patrão. Tudo parecia um sonho, nem conseguira dormir na noite anterior. Seu coração acelerava a cada minuto que passava, com a proximidade do momento tão almejado. Quando foi encontrar-se com o seu patrão, este lhe disse:

– Tenho uma proposta. Em vez de dinheiro, ofereço-lhe quatro conselhos, um para cada dia de sua viagem.

O jovem ficou surpreso diante da inesperada proposta. Ele havia trabalhado todo aquele tempo com a intenção de angariar dinheiro, oferecer um pouco de conforto àquela que seria sua esposa, e agora… O que fazer? O jovem não se conteve, sabia que correria riscos no caminho de volta. Salteadores poderiam levar todo o seu dinheiro, animais selvagens poderiam matá-lo, além de doenças e outros perigos. Assim, decidiu que realmente precisava de conselhos, pois, rever sua amada era o que mais importava. Então, optou pelos quatro conselhos, e o homem iniciou o pagamento:

– Jamais aceite algo sem custos ou esforço;

– Não confie inteiramente em pessoas que você não conheça;

– Sempre seja prudente;

– Lembre-se que a força do amor apaga o ódio.

Após receber os conselhos, o rapaz ganhou do ex-patrão alimentos necessários para a viagem e um presente para levar, com a promessa de abri-lo, ao lado se sua noiva, somente após a cerimônia de casamento. Em seguida tomou a estrada e, quando o dia já estava prestes a terminar, deparou-se com um homem que passava a cavalo oferecendo-lhe ajuda.

– Posso levar toda sua bagagem? Assim, você poderá caminhar mais tranqüilo, e não pagará nada por isso.

Quando já fazia gestos para passar ao desconhecido suas bagagens, o homem lembrou-se do primeiro conselho. Recuou, agradeceu e seguiu viagem. Ao chegar à próxima localidade descobriu que aquele homem usava tal estratégia para assaltar os viajantes. Naquela noite, quando chegou ao vilarejo seguinte, uma pessoa correu ao seu encontro para oferecer-lhe estadia em sua própria casa.

– Você pode confiar inteiramente, ficar despreocupado que terá uma noite protegida.

Assim como anteriormente, sua iniciativa foi a de confiar naquela pessoa e seguir sua proposta. Contudo, veio-lhe a mente o segundo conselho. Então agradeceu e não aceitou o convite. No outro dia, ainda de madrugada, quando estava saindo do lugarejo, passou por uma casa onde viu muitas pessoas embriagadas, outras ensangüentadas, e ouviu tiros e gritos. O lugar era um bordel, onde haviam lhe oferecido hospedagem.

Dias depois, ao se aproximar da casa de sua noiva, com muita prudência desacelerou os passos e observou o ambiente. Ao avistar a jovem, percebeu que havia um rapaz em sua companhia. Ficou estático diante da cena dos dois brincando e conversando com intimidade. Foi o bastante para que ele se enchesse de ódio e planejasse matar os dois. Depois de muito refletir lembrou-se do último conselho, e resolveu segui-lo indo em direção a moça para ouvir suas explicações. Quando sua noiva o viu, saiu-lhe ao encontro com os olhos cheios de lágrimas, contou-lhe da morte dos seus pais, e apresentou-lhe aquele que era seu irmão mais novo. Finalmente casados, ao abrir o presente recebido do seu ex-patrão, notou que todo o dinheiro que havia ganhado em seu trabalho estava ali.

Quando valores eternos são perdidos, aquilo que realmente importa se esvai por entre os dedos como água, causado perdas irreparáveis. Se os pais dessem mais conselhos aos seus filhos, e menos dinheiro, teríamos famílias melhores e filhos mais felizes.

* É Ministro do Evangelho; Bacharel em Teologia pelo Instituto Bíblico das Assembléia de Deus – SP, e acadêmico de Pedagogia no IESAP-AP. theologando@hotmail.com

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