Uma Droga lícita

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Minha esposa chega do plantão na unidade mista ‘hiper’ cansada. Muitos atendimentos no domingo, dentre eles um óbito. Basta fazer duas perguntas e você já vê que a questão de fundo é a droga lícita: bebida alcoólica.

Nos meus anos militando na Justiça do Amapá, quinze deles como Magistrado, trabalhei em todos os municípios do Estado e, se fosse possível abstrair a questão de fundo dos processos criminais e de violência doméstica, lá estaria a tal da droga lícita: bebida alcoólica. 

Sem essa droga muitos pais de família ainda estariam em casa, muitos jovens na escola, muitos relacionamentos ainda perdurariam e muitos acidentes automobilísticos não teriam ocorrido.

Mas a força da ‘mardita’ tem dizimado lares, roubado a juventude e acabado com o sonho de muitas pessoas.
A organização Mundial de Saúde considera o uso excessivo de álcool uma doença desde 1967 e recomenda que seja encarado pelas autoridades como questão de saúde pública.

O alcoolismo é uma doença crônica, do ponto de vista médico, que tem a ver com aspectos socioeconômicos e comportamentais e se caracteriza pelo consumo compulsivo de álcool, na qual o usuário aos poucos vai se tornando tolerante e precisa cada vez de doses mais fortes para produzir o efeito desejado. A retirada da bebida da vida do indivíduo causa sinais e sintomas de abstinência.

Segundo o Psiquiatra Sérgio Nicastre, do Hospital Albert Einstein, o alcoolismo é uma condição patológica que tira a “liberdade do indivíduo de optar pelo consumo ou não de bebida alcoólica”.

Em1965, a revista O Cruzeiro já chamava a atenção dos leitores numa reportagem sobre causas e efeitos do alcoolismo, considerando, à época, “o mais corrosivo veneno ‘atual’ do corpo e da alma e “o maior problema enfrentado pela psiquiatria” na medicina. Lá se vão mais de 50 anos. E o que mudou de lá para cá? 

De lá para cá o problema se agravou. Se em 1965 a Revista Cruzeiro já tinha esse enfoque, quando a doença ainda não atingia índice alarmantes, a situação hoje é que o Brasil consome mais álcool que média mundial. No Relatório Global sobre Álcool e Saúde, da Organização Mundial de Saúde (OMS), publicado em maio de 2014, apontava-se que em 2010, no mundo, indivíduos com 15 anos ou mais consumiram cerca de 6,2 litros de álcool puro, o equivalente a 13,5g por dia, porém, no Brasil o consumo total estimado equivale a 8,7 litros por pessoa, 40% acima da média mundial. Nada que nos orgulhe.

Mas a situação é pior entre os mais jovens pois o Relatório da OMS coloca o álcool como o maior responsável pela morte de brasileiros entre 15 e 19 anos, seja em acidentes de trânsito ou parada cardíaca. E o consumo só cresce nessa faixa etária. Na outra faixa etária, entre 13 e 14 anos, o número equivale a quase dois bilhões que já experimentaram ou fazem uso de bebida alcoólica. 

A psicóloga Romi Campos Shneider Aquino em entrevista para o Canal G1 afirma que, quase sempre, os pais ignoram o risco do consumo de álcool e não percebem que as práticas que eles adotam em casa influenciam no que o filho vai fazer. “Os pais subestimam o consumo de álcool na infância. Tem pais que estão bebendo uma cervejinha e a criança fica olhando, com vontade. Aí o pai põe [bebida alcoólica] na boquinha da criança, só pra ela ficar com vontade. A criança não vai se tornar uma alcoólatra por causa disso, mas o paladar da criança vai se acostumando com o álcool. Essas brincadeiras são coisas sérias”, diz a psicóloga. 

Paralelo ao consumo, a produção de bebidas alcoólicas também vem numa crescente. Se na época da reportagem da Revista Cruzeiro (1965) o álcool não pesava na balança econômica, pois até àquele tempo a cachaça era produzida artesanalmente e as cervejas, em sua maioria eram importadas, hoje o Brasil é o terceiro maior produtor de cerveja do mundo, depois da China e dos EUA. 

Muitas vezes esse problema passa desapercebido para o grande público porque o álcool, diferente de outras substâncias viciantes, leva mais tempo para causar danos físicos e dependência. É o tal do ‘beber socialmente’ durante anos a fio. E a mídia se encarrega de, aos poucos, levar o indivíduo a percorrer um caminho, muitas vezes sem volta.

Já está assentado na mente de muitos brasileiros que não se pode ter um final de semana feliz ou ver um futebol pela televisão sem que esteja tomando uma ‘cervejinha’. Que no carnaval o indivíduo tem que beber até cair. Que através da bebida o indivíduo vai alcançar um nível de prazer altíssimo. Que Copa do mundo é momento de até faltar ao trabalho, justificadamente, para poder beber à vontade.

E assim muitos vão perdendo o interesse de fazer um programa de final de semana com a família, sem bebidas e, principalmente no interior do Estado, o bar é das poucas alternativas de lazer que as pessoas têm, levando inclusive os filhos, para ver, no final do dia, um espetáculo degradante de bêbados brigando e se ferindo.

Está passando da hora das autoridades intensificaram uma campanha contra o uso do álcool, assim como foi e é feito contra o tabaco, que reduziu consideravelmente seu consumo. 
Um brinde à sobriedade!!
 
*Heraldo Costa é membro da ALEA, Academia de Letras Evangélicas do Amapá.

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