O Negro que honrou a raça – 1

Por ocasião de sua morte, a 24 de agosto de 1882, todos os grandes jornais do Brasil noticiaram o falecimento morte do grande líder abolicionista. A Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro assim se referiu a Luiz Gama.

“É um nome tão curto quão dilatado e admirável foi o valor heroico de quem o trouxe e o elevou nesta vida. (…) lutador convencido, trabalhou até à última hora pela redenção dos cativos por essa causa de que foi o mais extremado apóstolo. Subindo todos os degraus da escala social – tendo sido escravo e morrendo advogado respeitadíssimo e admirado – Luis Gama é um exemplo e um ensinamento. É o exemplo do quanto pode o esforço próprio para a elevação do homem na sociedade: o ensinamento para os que, como ele, se dedicou por uma causa em que uma ação bem dirigida vale mais do que milhares de frases bem pensadas”.

Entrevistei Antônio Rodrigues Prado Júnior, para saber melhor sobre este mulato que me causou suprema admiração.

Entrevistador: – Como nasceu Luis Gama?

Prado Júnior: – Até aos dez anos, Luis Gama era uma criança como as outras. A mãe trazia-o nos braços extremosamente: o pai parecia ter por ele um grande afeto. Foi ao completar aquela idade que o destino lhe mudou brutalmente a vida, arrastando-o de súbito pelo mundo, como os temporais arrastam pelo mar os barcos sem vela e sem leme.
Entrevistador: – Quem eram seus pais?

Prado Júnior: – Era filho de antiga escrava africana, Luisa Mahin, oriunda da Costa da Mina, da nação Nagô, e de um fidalgo rico homem de origem portuguesa. Ela uma brava batalhadora. Ele, um estróina, jogava todo o dinheiro que lhe caía nas mãos. O pai de Luis Gama, viciou-se tanto no jogo que para ter com que jogar, passou a cometer todas as torpezas.

Entrevistador: – Como Luis Gama deixou a Bahia e foi morar em São Paulo, ainda criança?
Prado Júnior: – Certo dia, seu pai pela manhã, entrou na sua casa. Sentou o filho, beijou-o fez-lhe os carinhos do costume e, de repente com a maior naturalidade, perguntou-lhe: – Não queres ir com o papai, num barco, ver os navios que estão no porto? O pequeno pulou contente. Tinha uma vontade louca de andar no mar e uma vontade maior de entrar no navio. Quero! Quero! Vamos!

A mãe correu a levá-lo e a vesti-lo. Meia hora depois, a mãozinha segura à mão do pai, lá saiu Luis pelas ruas, pulando ingenuamente, alegremente, como um pássaro feliz. Era 10 de novembro de 1840, no porto havia dois ou três navios. O Saraiva um pequeno navio de vela, de dois mastros, que carregava escravos, estava ancorado no fundo da enseada.

– Queres ir àquele navio que está mais adiante? Perguntou o pai ao filho apontando o navio.

– Quero
Para quem sonhava com o passeio no mar, quanto mais longe estivessem os navios, mais encantador seria o passeio. Um escaler levou-o ao Saraiva.

O garotinho é a vivacidade em corpo e alma. Quer ver tudo e tudo quer saber. Ao pôr os pés a bordo, percorre o barco de ponta a ponta, pegando, examinando, indagando miudeza por miudeza.

Mas, em certo momento, sente que o pai não está ao seu lado. Em vão procura-o aqui, ali. Corre à popa. Corre à proa. Corre à amurada e o vê já distante, fugindo no escaler que os trouxera.

– Pai! Grita aflitamente.
– Vou à terra filhinho, mas volto já, respondeu-lhe de longe o fidalgo.
Com aquela pouca idade. Luis sabia o pai que tinha. Num relance, compreendeu a cilada miserável que caíra.

E, sufocando de lágrimas brada numa grande explosão de revolta:
– Papai o senhor me vendeu!

Parecia mentira, mas era verdade. Para ter cem ou duzentos mil reis com que pudesse jogar, o pai havia vendido o filho pequenino.

O negócio fora feito na véspera. Toda aquela história de passeio no mar tinha sido inventada para entregar a criança ao comandante do navio.

O resto do dia o pequenino não parou de chorar.
Atiraram-no depois para o convés, no meio dos escravos que iam ser vendido no Rio de Janeiro.

À tarde, o barco saiu barra afora. O pobrezinho, que só conhecia a doçura dos carinhos da mãe, tremeu diante do longo inferno que se desenrolou aos seus olhos.
Ao chegar ao Rio de Janeiro, levaram-no com os outros escravos para ser vendido no mercado.

O alferes Antonio Pereira Cardoso, negociante dos negros em São Paulo, compra-o para revender. Mas Luis é tão pequeno que em São Paulo ninguém o quer…

Pr. Dr. Oton Alencar
Membro da Academia de Letras e Artes Evangélica do Brasil.

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